Sequestro das Ruas – Manifesto

Manifesto

Todos os dias ao sair de casa somos violentados por uma enorme quantidade de ruído visual que afasta a nossa atenção da beleza da arquitectura, do céu, das pessoas,  obrigando-nos a ler todos os dias os slogans de autopromoção, os nomes que as empresas se deram a si próprias em superfícies que gritam, mais do que comunicam. É a ditadura da imagem, das letras, que não conseguimos deixar de ver ou ler, assim como não é possível deixar de ouvir.

A utilização das superfícies pela publicidade substitui gradualmente a estrutura histórica da cidade e o seu território.  Esta estrutura fica “oculta” aos olhos da sociedade.

O espaço público serve assim de meio para o benefício privado. As marcas apropriam-se de fachadas, de edifícios históricos e de espaços abertos, para que possam publicitar os seus produtos e a si próprias. Este processo é um negócio feito maioritariamente entre as grandes marcas e os proprietários dos edifícios, sendo inexistente a apreciação da sociedade. É um sequestro do espaço público por parte das empresas.

O benefício privado do uso do espaço público deveria reverter também para o da sociedade.

Em geral, o design criado para o uso de superfícies esquece a vasta tradição artística, cultural e política da nossa profissão. O design de superfície é realizado sem complexidade ou regras políticas. O seu propósito é meramente comercial.

A economia de mercado em geral não produz para satisfazer necessidades, mas sim para obtenção do lucro e ampliação econômica.


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No papel de designers devemos comunicar diretamente com a sociedade, sendo o fruto do nosso trabalho criar matérias e artefatos com valor cultural e crítico. É necessário estimular a sociedade ao pensamento crítico e incutir valores políticos, sendo o design um caminho para o fazer. A sociedade sabe quais os seus interesses embora não os coloque em prática.

O objetivo é reverter o processo “antinatural” existente na economia que confronta o interesse das maiorias. Como designers comunicamos diretamente com a sociedade, sendo o fruto do nosso trabalho criar para estas maiorias. O interesse individual está inserido no interesse coletivo. Ainda é possível fazermos um design para massas, com um interesse maior que o comercial, já que o bom design não deve ficar restrito a pequenos círculos porque o design é por si só uma atividade social.

O design é a nossa profissão e um elemento fundamental na construção do conjunto da sociedade, contudo não é um aspecto que funciona individualmente, mas sim em conjunto com outros fatores que não podemos ignorar.

Exigimos uma cidade das pessoas, tanto como indivíduos como coletivo: um espaço que não seja só de passagem, mas de estadia, de viver no amplo sentido do termo. Queremos ter lembranças com os nossos amigos e famílias nas ruas, em calma, sem pressas, sem ter um destino. Queremos desacelerar o espaço comum, queremos ter lugares para ficar mais além do espaço privado dos nossos lares. Perguntamo-nos: é isto possível numa cidade com passeios e estradas cheias de buracos, cheias de lixo, de ruído visual e acústico e sem espaço para usufruir?

É por isso que a nossa cidade está a ficar vazia. Lisboa tem menos população do que nos anos 30. As famílias estão a movimentar-se para os arredores da cidade deixando as habitações da mesma vazias e livres para o negócio do turismo.

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E isto não é contra os turistas. Não que as nossas ruas não fiquem mais ricas. A diferença de espírito entre o turista e o morador da cidade é visível. E não é porque os primeiros estejam invulgarmente pletóricos, mas porque há uma tristeza instalada nos corações dos portugueses e dos imigrantes. É também importante refletir: como é possível que zonas inteiras da cidade fiquem vazias de moradores nativos e se encham de hostels privados e lojas de presentes para turistas? O turismo é mais uma atividade económica para o pais, mas não deveria ser a única. E nós, designers, temos de ter uma opinião própria na defesa dum desenvolvimento dum modelo de pais diferente. Porque não queremos uma “cidade resort”, queremos uma cidade autêntica.

Queremos que nos devolvam a cidade!

Sofia Gralha

Álvaro Trabanco

Beatriz Ramos

Lisboa, Outubro 2015

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